Vitaminas e Minerais


Vitamina



B3

A vitamina B3, também denominada niacina, ácido nicotínico ou vitamina PP, é uma das vitaminas hidrossolúveis pertencentes ao complexo B. O nosso organismo armazena doses muito pequenas desta vitamina por isso é recomendada a sua ingestão diária, de forma a manter uma dieta equilibrada1.

Um estado grave de carência em vitamina B3 conduz à pelagra, uma doença cujo nome significa “pele áspera” e que foi primeiramente descrita pelo médico espanhol Gaspar Casal, ao demonstrar a relação desta doença com dietas desequilibradas à base de milho, observadas nos camponeses pobres da região das Astúrias (Espanha)2.

Mais tarde, através de várias experiências em humanos e animais, o médico Joseph Goldberg concluiu que esta doença era causada pela ausência de um fator, que existia no leite e na carne mas que não existia no milho, ao qual chamou de fator P-P (“Pellagra – preventative”)3-5.

O ácido nicotínico desempenha as suas funções no organismo após ser convertido em NAD (nicotinamide adenine dinucleotide) e NADP (nicotinamide adenine dinucleotide phosphate), moléculas nas quais o ácido nicotínico aparece sob a forma de nicotinamida (o seu derivado). Estas formas ativas têm um papel importante como coenzimas para uma grande variedade de proteínas que catalisam reações oxidação-redução vitais para a respiração tecidual4.

A vitamina B3 tem um papel muito importante no metabolismo dos hidratos de carbono, proteínas e gorduras. É indispensável para a síntese das hormonas sexuais (estrogénio, progesterona e testosterona), bem como para a produção de cortisol, tiroxina e insulina1,6.

A ingestão de niacina contribui para o normal metabolismo produtor de energia, para o normal funcionamento do sistema nervoso e função psicológica, bem como para a manutenção de uma pele e mucosas normais. Outra contribuição da niacina é na redução do cansaço e fadiga7.

A vitamina B3 pode ser encontrada em cereais, pão, peixe, frango e perú, carne de vaca, cogumelos, amendoins e abacates. Os vegetais têm pouca quantidade de niacina5.

Esta vitamina pode ainda ser sintetizada no organismo a partir do aminoácido triptofano1,5,8.

Alimento

Conteúdo em vitamina B3 (Niacina)

Amendoins

17,2 mg/100g

Atum

13,3 mg/100 g

Carne de perú

8,0 mg/100 g

Carne de frango

4,7–14,7 mg/100 g

Trigo mourisco

4,4 mg/100 g

Cogumelos

4,2 mg/ 100 g

Lentilhas

2,0 mg/100 g

Fonte: Adaptado de Gerald F. Combs, Jr. The Vitamins Fundamental aspects in nutrition and health. Third edition. Elsevier AP. 20089

Entre todas as vitaminas hidrossolúveis, a vitamina B3 é a menos sensível. A niacina contida nos alimentos é estável à luz, oxidação e aos fatores normalmente envolvidos na preparação dos alimentos (ex. calor, humidade, etc.) sendo que apenas 5% de niacina é perdida no processo de cozedura1,2,5,8.

Em processos de pasteurização, esterilização e secagem (por exemplo do leite) são perdidas quantidades negligenciáveis desta vitamina2.

A perda de vitamina B3 durante a moagem e processamento de cereais pode ser considerável, o que explica o facto do pão de trigo integral conter cinco vezes mais quantidade desta vitamina do que o pão branco2.

A carência em niacina pode estar relacionada com carências alimentares (não só da própria vitamina mas também carência proteica), problemas metabólicos (metabolismo do triptofano – doença de Hartnup) ou de absorção e uso prolongado de medicamentos como isoniazida, fármacos imunossupressores, anticancerígenos (fluorouracilo) e carbidopa. Pessoas que fazem diálise, portadores de HIV ou pessoas que sofram de alcoolismo crónico também podem apresentar deficiência em niacina1,5.

Os sintomas mais comuns nos casos de carência incluem alterações na pele, aparelho digestivo e sistema nervoso4.
A carência grave em vitamina B3 é denominada Pelagra, também conhecida por doença dos 3 D: Dermatite, Diarreia e Demência. Este termo pode ser enganador uma vez que a diarreia nem sempre está presente e a demência é relativamente rara2.

A doença é caracterizada por lesões na pele nas zonas mais expostas ao sol (face, pescoço, costas das mãos e antebraços), que em alguns doentes se assemelham a queimaduras solares. Nas formas crónicas apresentam-se como lesões simétricas com descamação, “pele estalada” e espessa e com excesso de pigmentação. Podem também aparecer lesões na boca e no esófago. Quase sempre existe anemia e sintomas do tipo neurológico como ansiedade, depressão e, numa fase mais avançada, tonturas e tremores2,5,8.

 

Idade

Masculino (mg NE*/dia)

Feminino (mg NE*/dia)

Lactentes

0-6 meses**

2

2

7-12 meses**

4

4

Crianças

1-3 anos

6

6

4-8 anos

8

8

9-13 anos

12

12

Adolescentes

14-18 anos

16

14

Adultos

19 anos ou mais

16

14

Grávidas

A partir dos 14 anos

-

18

Mulheres a amamentar

A partir dos 14 anos

-

17

*NE, niacin equivalent: 1 mg NE = 60 mg de triptofano = 1 mg niacina

**IA: ingestão adequada: não existem estudos que permitam estabelecer o VRN, mas estes valores garantem uma nutrição adequada.

Nos casos de Pelagra, a OMS (Organização Mundial de Saúde) recomenda uma dose diária de 300mg de nicotinamida dividida em várias tomas, durante 3 a 4 semanas. A niacina em grandes quantidades deve ser administrada sob a forma de nicotinamida, porque não provoca os efeitos adversos característicos do ácido nicotínico2.

É também recomendada a suplementação das restantes vitaminas do complexo B uma vez que as pessoas com Pelagra normalmente também têm deficiência noutras vitaminas pertencentes a este complexo2.

Sabe-se ainda que doses farmacológicas de niacina reduzem os níveis de colesterol no sangue mas estão associadas a efeitos adversos e por isso têm de ser utilizadas com precaução para este fim1.

No geral a toxicidade por niacina é baixa e os efeitos secundários devem-se, normalmente, a problemas metabólicos. Ainda assim, o consumo de niacina em excesso pode provocar vermelhidão na pele, prurido, sintomas gastrointestinais (náuseas e vómitos) e toxicidade hepática (lesão nas células do fígado)1.

Pessoas com história de doença renal ou hepática, úlceras no estômago, gota ou tensão arterial baixa não devem tomar suplementos de niacina. Pessoas com diabetes, problemas na vesícula biliar, doença coronária ou angina devem ter supervisão médica na toma destes suplementos. Já pessoas com uma cirurgia agendada devem parar a toma de niacina 2 semanas antes da mesma9.

A niacina pode aumentar o efeito de alguns fármacos como é o caso dos anticoagulantes (aumentando o risco de hemorragia), anti-hipertensores (aumentando o risco de hipotensão), e alguns anticonvulsivantes (carbamazepina e primidona), sendo recomendada precaução na associação da vitamina B3 com estes medicamentos. A associação com estatinas pode aumentar os efeitos adversos destas, principalmente aumentando o risco de rabdomiólise10.

Existem outros medicamentos que podem diminuir os níveis de vitamina B3 no organismo, como é o caso a azatioprina, carbidopa (por alterar o metabolismo do triptofano), fluorouracilo, mercaptopurina e alguns fármacos anticonvulsivantes (fenitoína e ácido valpróico)4,10.

Em relação aos antibióticos pertencentes à classe das tetraciclinas e a fármacos para o colesterol (colestiramina), estes não devem ser tomados na mesma altura que os suplementos com niacina uma vez que existe interação no processo de absorção. A rifampicina e a isoniazida (utilizadas no tratamento da tuberculose) também mostraram inibir a absorção de niacina2,10.

A conversão de triptofano em niacina está reduzida em condições de deficiência de vitamina B6 bem como em casos de deficiência em zinco e cobre, uma vez que estes minerais são cofatores essenciais no processo2.

  • 1867 – Síntese do ácido nicotínico.
  • 1912 – C. Funk questiona-se sobre a hipótese de existir um fator nutricional responsável pela Pelagra.
  • 1935 – D. Warburg e W. Christian isolam o ácido nicotínico da coenzima II (NADP).
  • 1937 – C. A. Elvehjem demonstra o efeito curativo de um extrato de fígado na doença da língua negra do cão, doença semelhante à Pelagra humana.
  • 1945 – Demonstra-se que o triptofano pode ter a mesma eficácia que o ácido nicotínico no tratamento da deficiência em vitamina B3 no rato.
  • 1960 – Observa-se que doses altas de ácido nicotínico baixam os níveis séricos de colesterol e triglicéridos.
  • 1980 – Demonstra-se que o processo ADP-ribosilação de proteínas é dependente do estado de vitamina PP.
  1. http://lpi.oregonstate.edu/mic/vitamins/niacin - Linus Pauling Institute. 2013
  2. http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/66704/1/WHO_NHD_00.10.pdf  - Pellagra and its prevention and control in major emergencies. World Health Organization. 2000.
  3. http://www.news-medical.net/health/Niacin-History-(Portuguese).aspx – News Medical. 2014
  4. Goodman & Gilman. As bases farmacológicas da terapêutica. 9ª edição. Secção XIV (62)
  5. Le Grusse, J.; Watier, B., Les vitamines – Données Biochimiques, nutritionneles et cliniques. Centre D'Etude et D'Information sur les Vitamines.1993. pags. 163-181
  6. Mindell, E., Tudo sobre as vitaminas. Plátano. 1991 pags. 68-70; 218-220;255-258
  7. Regulamento (UE) N.º 432/2012 da Comissão, de 16 de Maio de 2012
  8. Raber, Dr.F., PM/MED-T, Training Manual Vitamins. Basel. February 1990. pags 99-100
  9. Gerald F. Combs, Jr. The Vitamins Fundamental aspects in nutrition and health. Third edition. Elsevier AP. 2008
  10. http://umm.edu/health/medical/altmed/supplement/vitamin-b3-niacin - University of Maryland Medical Center. 2015