Vitaminas e Minerais


Vitamina



D

A vitamina D, ou calciferol, é uma vitamina hidrossolúvel e é encontrada em muito poucos alimentos. As formas principais são conhecidas como vitamina D2 (ergocalciferol: de origem vegetal) e vitamina D3 (colecalciferol: de origem animal). É produzida pelo nosso organismo por ação dos raios ultravioleta que ao incidirem na pele desencadeiam a produção desta vitamina1.

A vitamina D obtida através da exposição solar, alimentos e suplementos é biologicamente inerte, precisa de sofrer duas hidroxilações para ser ativada. A primeira ocorre no fígado e converte a vitamina D em 25-hidroxivitamina D - [25(OH)D] – também conhecida como calcidiol, e a segunda ocorre nos rins e resulta na forma biologicamente ativa 1,25-di-hidroxi-vitamina D - [1,25(OH)2D] – também denominada calcitriol1.

O raquitismo, doença associada à falta de vitamina D, é conhecido desde a Antiguidade, mas era confundido com outras doenças ósseas, só foi descrito e reconhecido como uma doença distinta entre os anos de 1645 e 1650. No século XIX esta doença era muito frequente na Europa Ocidental e Central, assim como na América do Norte, afetando mais de 80% das crianças das classes mais pobres nas cidades industriais de Glasgow, Londres e Nova Iorque2.

Em 1782 é descrita a ação anti-raquítica do óleo de fígado de bacalhau e mais tarde é recomendado como tratamento para o raquitismo. Já em 1919 é reconhecido o papel curativo dos raios solares (raios UV) nesta patologia2.

A vitamina D promove a absorção de cálcio no intestino e contribui para a manutenção das concentrações séricas normais de cálcio e fosfato de modo a estabelecer uma mineralização óssea normal e prevenir episódios de tetania hipocalcémica. Esta vitamina é necessária ao crescimento e remodelação ósseos, uma vez que sem ela os ossos podem ficar finos e quebradiços1.

Assim, a vitamina D ajuda a prevenir o raquitismo nas crianças e a osteomalacia nos adultos, juntamente com o cálcio ajuda também a prevenir a osteoporose1.

Para além disso, a vitamina D também regula a excreção de fosfato inorgânico pelos rins e a secreção da hormona paratiroideia, contribui para a modulação do crescimento celular e neuromuscular, para a função imunitária e redução da inflamação, sendo essencial para a homeostase1,3,4.

Existem muitos genes que codificam proteínas reguladoras da proliferação celular, diferenciação e apoptose que são modulados em parte pela vitamina D1.

A ingestão de vitamina D contribui para a normal absorção/utilização do cálcio e do fósforo e para os níveis normais de cálcio no sangue. Contribui ainda para a manutenção do normal funcionamento muscular, ossos e dentes normais, para o normal funcionamento do sistema imunitário e para o processo de divisão celular5.

A incidência da radiação solar ultravioleta B na pele estimula a produção de vitamina D (principalmente na sua forma D3). Passar algum tempo no exterior, duas a três vezes por semana, geralmente é suficiente para crianças e jovens adultos sintetizarem a vitamina D necessária para prevenir a deficiência nesta vitamina. Deve-se ter em conta que, com o avançar da idade, a capacidade para sintetizar a vitamina D através da exposição solar diminui, e que as pessoas com pele mais escura sintetizam menos do que as que têm pele mais clara3.

A vitamina D na forma D3 está presente apenas nos alimentos de origem animal enquanto a vitamina D na forma D2 está predominantemente presente nos alimentos de origem vegetal. Os alimentos mais ricos são os peixes gordos (ex. sardinhas e salmão), gema de ovo, fígado, manteiga e matéria gorda do leite1,6.

Para além disso, já existem alguns alimentos enriquecidos com adição de vitamina D, tal como leite e cereais6.

Alimento

Conteúdo em vitamina D

Sardinhas

37,5µg/100g

Salmão

5,5-11 µg/100g

Camarão

3,75 µg/100g

Natas

1,25 µg/100g

Manteiga

0,875 µg/100g

Ovo

0,7 µg/100g

Queijo

0,3 µg/100g

Fonte: Adaptado de Gerald F. Combs, Jr. The Vitamins Fundamental aspects in nutrition and health. Third edition. Elsevier AP. 20087

A vitamina D é degradada rapidamente pela luz, oxigénio e ácidos. Temperaturas elevadas, acima dos 100ºC, levam a uma transformação irreversível desta vitamina2,8.

A carência em vitamina D pode ocorrer quando a sua ingestão é inferior aos valores recomendados (pode estar associado a alergias ao leite, intolerância à lactose ou vegetarianismo), a exposição solar é limitada, os rins não conseguem fazer a conversão na forma ativa, ou a absorção no trato gastrointestinal não é suficiente1.

A concentração sérica de 25(OH)D é o melhor marcador para revelar os níveis de vitamina D no organismo, uma vez que reflete a produção cutânea e a quantidade que é obtida através dos alimentos e suplementos, e tem um tempo de semi-vida de 15 dias em circulação1.

O risco de deficiência de vitamina D é mais elevado entre as crianças e os idosos, especialmente aqueles com baixa exposição à luz solar. Em bebés prematuros e bebés com baixo peso, as funções hepáticas e renais podem ser inadequadas para um metabolismo ótimo da vitamina D e o leite humano também é uma má fonte desta vitamina. Nos idosos as restrições alimentares são um fator de risco adicional2.

Pessoas com doenças que afetam o fígado, os rins e a glândula tiróide, ou que afetam a absorção de gorduras, os vegetarianos, os alcoólicos e os epiléticos em terapia de longa duração com anticonvulsivantes, bem como as pessoas que estão retidas em casa, têm um maior risco de deficiência em vitamina D2.

A carência nesta vitamina pode conduzir a raquitismo nas crianças e a osteomalacia e osteoporose nos adultos. No caso do raquitismo, aparece principalmente entre os 6 meses e os 2 anos de idade, e caracteriza-se por uma falha na mineralização do tecido ósseo, resultando em ossos frágeis e deformações do esqueleto.1,2

No caso da osteomalacia, tem como consequência ossos fracos, resultando em dor e fraqueza muscular, no entanto estes sintomas não aparecem logo numa fase inicial1.

 

Idade

Masculino (µg/dia)

Feminino (µg/dia)

Lactentes

0-6 meses*

10

10

7-12 meses*

10

10

Crianças

1-3 anos

15

15

4-8 anos

15

15

9-13 anos

15

15

Adolescentes

14-18 anos

15

15

Adultos

19-70 anos

15

15

Idosos

A partir dos 70 anos

20

20

Grávidas

Até aos 18 anos

-

15

19 anos ou mais

-

15

Mulheres a amamentar

Até aos 18 anos

-

15

19 anos ou mais

-

15

*IA: ingestão adequada: não existem estudos que permitam estabelecer o VRN, mas estes valores garantem uma nutrição adequada.

Suplementos de vitamina D3 de pelo menos 800 UI/dia podem ser úteis na redução da perda óssea e da taxa de fraturas em idosos. Para que a suplementação em vitamina D3 seja eficaz para preservar a saúde óssea, devem ser ingeridas quantidades de cálcio na ordem dos 1000-1200mg3.

De forma a prevenir o raquitismo, é aconselhada a ingestão de vitamina D em crianças. No entanto, não existe consenso em relação às quantidades adequadas, por exemplo, no Canadá, recomenda-se que os bebés devem ingerir 400UI/dia de vitamina D e aumentar para 800UI/dia nos meses de Inverno no caso dos bebés que vivem no norte do país. A Sociedade Endócrina dos Estados Unidos recomenda que os bebés e crianças devem ingerir 400 a 600UI/dia de vitamina D e que poderão precisar de 1000UI por dia para obter o melhor benefício9.

Um outro ponto importante é que a utilização tópica de análogos da vitamina D está aprovada para o tratamento da psoríase3.

A intoxicação por vitamina D normalmente está associada à ingestão de doses elevadas através dos suplementos, não costuma estar associada nem aos alimentos nem à exposição solar excessiva. Pode ter como consequência o aparecimento de alguns efeitos adversos graves como a hipercalcemia (com a consequente deposição deste mineral nos rins, coração, pulmões e vasos sanguíneos), casos de confusão e desorientação, náuseas, vómitos, obstipação, falta de apetite, anorexia, fraqueza, poliúria e arritmias1,6.

A vitamina D e os seus derivados estão contraindicados em casos de hipercalcémia, hipercalciúria, e litíase cálcica2.
Alguns medicamentos podem aumentar os níveis de vitamina D, como é o caso dos estrogénios e da isoniazida. Outros podem diminuir os níveis de vitamina D no organismo, como os anticonvulsivantes (fenobarbital e fenitoína), orlistato, rifampicina e colestiramina1,10.

O calcipotriol e a digoxina juntamente com suplementos de vitamina D podem aumentar os níveis de cálcio no sangue para valores perigosos, e por isso é preciso ter atenção a esta associação10.

Os antagonistas dos canais de cálcio como a nifedipina, verapamilo, diltiazem e amlodipina, podem sofrer alterações quando tomados juntamente com suplementos de vitamina D10.

Os corticosteroides reduzem a absorção de cálcio e por isso diminuem o metabolismo da vitamina D, o que pode contribuir para alterações ósseas e desenvolvimento de osteoporose1.

A vitamina D pode ainda reduzir a absorção de estatinas, diminuindo o seu efeito10.

  • 1645-1650 – Descrição do raquitismo por médicos ingleses.
  • 1782 – Dale-Percival descobre o poder anti-raquítico do óleo de fígado de bacalhau.
  • 1865 – Perceção da importância dos raios solares e identificação da osteomalacia como a forma adulta do raquitismo.
  • 1921 – E. Mellanby reproduz experimentalmente o raquitismo e cura-o com óleo de fígado de bacalhau. Avança a ideia de um fator nutricional lipossolúvel que é confundido com a vitamina A.
  • 1922 – E. V. McCollum demonstra a existência de uma nova vitamina diferente da vitamina A, a que dá o nome de vitamina D.
  • 1924-1925 – Alguns cientistas colocam em evidência a existência de outra vitamina D, produzida ao nível da pele pela ação dos raios ultravioleta.
  • 1932 e 1936 – As substâncias que correspondem à vitamina D são isoladas.
  • 1959 – É sintetizada a vitamina D.
  • 1964 – D. Norman descobre 3 metabolitos da vitamina D que também têm atividade anti-raquítica.
  • 1971 – É estabelecida a estrutura do calcitriol.
  • 1980 – São descobertos recetores da vitamina D nas células de vários órgãos.
  1. https://ods.od.nih.gov/factsheets/VitaminD-HealthProfessional/ - US department of Health & Human services; National institutes of Health. 2016
  2. Le Grusse, J.; Watier, B., Les vitamines – Données Biochimiques, nutritionneles et cliniques. Centre D'Etude et D'Information sur les Vitamines.1993 pags. 57-79
  3. http://lpi.oregonstate.edu/mic/vitamins/vitamin-D - Linus Pauling Institute. 2014
  4. Raber, Dr.F., PM/MED-T, Training Manual Vitamins. Basel. February 1990. Pags 71-75
  5. Regulamento (UE) N.º 432/2012 da Comissão, de 16 de Maio de 2012
  6. https://www.nlm.nih.gov/medlineplus/ency/article/002405.htm - Medline Plus. 2015
  7. Gerald F. Combs, Jr. The Vitamins Fundamental aspects in nutrition and health. Third edition. Elsevier AP. 2008
  8. Jakobsen, J., Knuthsen, P., Stability of vitamin D in foodstuffs during cooking. Food Chemistry 148 (2014) 170–175
  9. https://www.vitamindcouncil.org/health-conditions/rickets/ - Vitamin D council. 2014
  10. http://umm.edu/health/medical/altmed/supplement/vitamin-d - University of Maryland Medical Center. 2016